Questionámos a advogada Dra. Maria José Larcher sobre a temática do nosso trabalho.
Aqui fica a opinião de quem conhece bem os meandros da justiça portuguesa, bem como os desafios de uma profissão que se revela fundamental para a manutenção dos direitos dos cidadãos.
Agradecemos à Dr. Zé a amabilidade e disponibilidade que nos dispensou.
1. QUAIS AS MOTIVAÇÕES QUE A LEVARAM A ESCOLHER O CURSO DE DIREITO?
O Curso de Direito não foi um sonho que viesse de há muito a ser alimentado, pois durante os anos de frequência do Ensino Secundário as ideias que tinha eram muito diversificadas – da Comunicação social às Relações Públicas, passando pelo Ensino de Português- Francês tudo foram hipóteses colocadas. Direito - bem ao contrário – era um Curso que muitos queriam tirar e que não me despertava interesse, situação que se manteve até perto da decisão da candidatura. A experiência dos mais velhos e os conselhos que sempre os meus pais me deram, alertando-me para as dificuldades de emprego que teria de enfrentar se optasse por alguns daqueles Cursos e sobretudo a total liberdade de escolha que sempre me colocaram, levou-me a escolher este Curso. A esta situação não foi também alheia a circunstância de ter sido obrigada a frequentar o 12.º Ano de escolaridade na Escola Emídio Navarro em Viseu, por na altura não haver o 12.º ano daquela área na Escola Secundária de Nelas. A troca de opiniões com Colegas novos, o grande número de pessoas conhecidas e amigas que iriam candidatar-se a Direito e a maior informação sobre as saídas profissionais e sobre as potencialidades do Curso, levaram-me de tal forma a escolher Direito que, na data das candidaturas coloquei apenas como opções Direito em Coimbra e Direito em Lisboa. Hoje não me arrependo da escolha feita!
2. QUE DIFICULDADES ENCONTROU AO LONGO DO SEU CURSO?
Frequentei o Curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, estabelecimento conhecido por todos pelo seu rigor e exigência. A imagem que temos ao iniciar um Curso de Direito é sempre centrada nos profissionais que diariamente vemos nas televisões e nos filmes e no que lemos na comunicação social – pessoas activas, com casos reais, dinâmicas, em constante acção! Chegar a uma Faculdade onde todas essas realidades deixam de existir e nos é ensinada muita teoria, muitas teses, muitas interpretações de autores, e em que a prática fica aparentemente ( hoje digo aparentemente mas na altura diria definitivamente ) posta de lado, é muito dificil. O ar austero dos professores, as salas com centenas de alunos, os manuais de páginas sem fim, a frieza e distância com que quem nos ensina debita matéria para aquelas pessoas que por vezes os tinham de ouvir em pé por todos os lugares do anfiteatro estarem ocupados, era dificil de ultrapassar. Contudo, a força que temos dentro de nós de querer levar o barco até ao porto e a solidariedade a amizade que se desenvolve entre Colegas, tudo vence e depressa achamos que tudo é normal e que é uma forma de nos darem bases para uma vida futura – e assim o sinto hoje! As teorias que nada me diziam hoje por vezes são-me úteis se aplicadas á prática e os alicerces que nos deram naquele Curso de Direito em Coimbra ninguém os consegue abalar e servem-nos ainda hoje ao fim de mais de vinte anos de licenciatura para uma maior formação técnico-jurídica.
3. PARA SER ADVOGADO QUE FORMAÇÃO TEVE QUE FREQUENTAR?
Terminei o meu Curso de Direito no dia 1 de Agosto de 1988, e nessa altura ser advogado exigia uma inscrição como advogado estagiário na Ordem dos Advogados, a frequência de estágio de cerca de ano e meio num escritório de advogados, com um Patrono nosso colega a acompanhar a nossa formação. Nesse período, assistiamos obrigatoriamente a julgamentos e diligências diversas em Tribunais, com a assinatura de uma folha de presenças pelos Juizes e faziamos defesas oficiosas em processos crime com nomeações pelos Tribunais para processos em curso. O estágio foi feito na cidade de Viseu, com muita troca de experiências entre os advogados e advogados estagiários e com a assistência a inúmeros julgamentos, elaboração de minutas de contratos, cartas, acções, entre tantos outros serviços com o acompanhamento do Colega. No final, o Patrono elaborava um relatório sobre o nosso trabalho e era por nós escolhido um tema para apresentação escrita de um trabalho final do estágio, que depois de avaliado pela Ordem dos Advogados nos permitia ser aprovados e obter finalmente a nossa Cédula profissional, o que vim a obter em 27 de Julho de 2000. Desde então as alterações no estágio de advocacia têm sido enormes, passando por exames escritos, provas orais, frequência obrigatória de aulas de formação em Coimbra, conferências com atribuição de créditos, e mais recentemente existe o tão polémico exame escrito de acesso à própria Ordem dos Advogados para poderem ser admitidos como estagiários.
4. QUAIS OS DESAFIOS QUE SE APRESENTAM A UM ADVOGADO, HOJE, EM PORTUGAL?
O nascimento sem qualquer controlo de qualidade de inúmeras “ Faculdades de Direito” por todo o país fez crescer de forma também descontrolada o número de advogados. A falta de formação de base que têm muitos dos actuais advogados e também juizes, procuradores, conservadores, notários, etc, torna o exercício da advocacia nos dias de hoje muito diferente da forma como a profissão era vivida quando iniciei a minha actividade. Felizmente que ainda não estamos num país onde tudo seja permitido e a acção dos Conselhos de deontologia da Ordem dos Advogados é cada vez mais atenta e necessária para disciplinar a acção dos advogados e servir de prevenção a muitos outros. O Advogado na actualidade tem sobretudo de se manter sempre actualizado com a constante mudança de legislação com que os nossos governantes nos presenteiam quase diariamente. A maior litigiosidade dos cidadãos e a maior informação dos clientes com acesso a muitas consultas de documentos, legislação e decisões judiciais pela internet é também um maior desafio para quem exerce esta profissão. Muitas das vezes o cliente surge nos nossos escritórios considerando-se mais conhecedor da lei do que o próprio advogado que procura para lhe resolver o problema, e nós temos de saber aceitar esses novos desafios e fazer entender ao cidadão que por vezes o que leu e o que pesquisou não é a verdade e a prática ensina-nos cada vez mais a actuar com muito estudo e análise das questões para bem servir os que buscam o nosso aconselhamento.
5. COMO COMENTA A SITUAÇÃO DA JUSTIÇA PORTUGUESA?
A justiça portuguesa seguramente já conheceu melhores dias! Está uma justiça muito cara para os cidadãos, ainda muito demorada para quem anseia por ver os seus problemas resolvidos, com alguns agentes da justiça sem a formação ou sem o perfil adequado ás funções que exercem, e uma justiça que o Estado tenta modernizar sem parar para pensar nas consequências para o país de algumas dessas alterações. A título de exemplo, tenta tirar-se processos dos Tribunais para os Julgados de Paz, sem que nesses locais se exija a presença de advogados que acompanhem os cidadãos, sem que se expliquem todos os actos e consequências ao utente dos serviços e sobretudo sem que os decisores – os Juizes de paz- tenham a formação que têm os Juizes dos nossos tribunais. Ao tentar tornar-se a justiça mais próxima dos cidadãos, esquece-se que o mais importante não é o tempo, não é a proximidade, mas é a certeza de que no final de um processo se fez a devida e merecida justiça para aquelas pessoas.
6. QUE CONSELHOS DARIA A UM JOVEM QUE QUER ESTUDAR DIREITO E SEGUIR UMA PROFISSÃO NESTA ÁREA?
Quase me sinto tentada a dizer que lhe diria “ Olha, o meu conselho, é que desistas!”, mas não vou tão longe...Um estudante que queira estudar Direito e seguir uma profissão nesta área deve sobretudo acreditar em si mesmo e pensar que – tal como nas demais profissões – o importante é querer ser um bom profissional e actuar de acordo com os seus desejos e sonhos. A esse jovem digo apenas que não pense que tem uma tarefa fácil, pois optar pelo Curso de Direito é sobretudo entrar num Mundo em que o estudo está sempre presente e não pára no dia em que terminamos o nosso Curso. É um desafio constante de quem quer caminhar com segurança, com consciência de que o conselho que se dá é o correcto, que a decisão que se toma é a certa, que a pessoa que se prende é a que deve ser presa, que a casa em que se vai ordenar uma busca é a do autor do crime, que a casa que se vai vender é a do devedor, que o contrato que se faz é o que deve ser feito naquele caso concreto, que o divórcio que se minuta é o adequado áqueles cidadãos, que a escritura que se redige é a que melhor serve as pessoas que a vão assinar – enfim, é um mundo tão vasto com tantas profissões e onde querendo se pode ser competente, responsável e com vastas áreas de realização profissional nas diferentes carreiras e profissões que o Curso de Direito abre a quem o conclui. Esta vida não tem só rosas e são muitos os espinhos que vão aparecer na frente, mas todo o caminho começa por um passo e sem dúvida que vale a pena caminhar para a nossa realização profissional e pessoal. Acima de tudo deixo um conselho – acreditar que é sempre possível ser bom profissional e ser hoje e sempre feliz com o que se gosta de fazer! Boa sorte! Quem sabe mais depressa do que agora parece seremos Colegas. Tenham uma certeza – naquilo em que esta “vossa Colega” puder ajudar, basta que me contactem.
Um Abraço e coragem! As oportunidades são de quem as souber agarrar... comecem já hoje! Maria José Larcher Monteiro